Hospitalhaços
Texto escrito a um processo de trainee
Seu nariz é vermelho, o cabelo despenteado, sapatos gigantes, camisa listrada e suspensórios coloridos. Quem é ele? Entrou na arena e tropeçou na escada. Que tombão! Deu uma, duas, três piruetas. E todo mundo riu. Olha a moeda! Cadê sua calça? Caiu!
Quem nunca foi ao circo e deu altas gargalhadas com as peripécias dos palhaços, que atire a primeira pedra. Tio Rego, Pipoquinha, Carequinha, Bozo, não importa o nome e, sim, a magia e alegria que transmitem, provocando uma espécie de riso coletivo. Um riso quase que milagroso, o melhor remédio.
Walquiria, administradora de empresas, recém casada com um professor da Unicamp, queria se dedicar a uma atividade social. Se uniu a mais duas pessoas e começou a levar um pouco de carinho e atenção aos pacientes do Hospital das Clínicas, da Universidade de Campinas. Dois anos depois, o grupo acabou, mas Waquiria tinha se identificado com o projeto e resolveu continuar com as visitas. Legal, mas o que isso tem a ver com palhaço?
Não só um palhaço, mas uma legião deles. Nascia, em 2001, os Hospitalhaços, um grupo de voluntários que dedicava algumas horas do seu dia para arrancar sorrisos de rostos tristes, apáticos, desconsolados. Uma atitude simples, a la “Patch Adams”, que vinha e ainda vem trazendo um pouco de alegria a muitas pessoas.
“Nosso trabalho é uma brincadeira muito séria”
Com 15 equipes de fronteira, e mais de 500 voluntários diretos e indiretos, os Hospitalhaços oferecem assistência contínua a diversos hospitais de Campinas e região, como o Hospital Municipal Mário Gatti, o Hospital das Clínicas da UNICAMP, o Centro Infantil Boldrini, o Hospital Maternidade Celso Pierro, da PUCC, o Hospital Estadual de Sumaré, o Hospital Municipal de Paulínia, o Hospital Municipal de Americana, o Hospital Infantil André Luis, de Americana, o Hospital Mario Covas, de Hortolândia e o Hospital da Restauração, de Recife.
Devidamente treinados, os voluntários, divididos em grupos de duas a seis pessoas, dedicam duas horas e meia, por semana, à transformação dos ambientes hospitalares através da figura lúdica do palhaço. Com caraterização personalizada, cada um inventa seu personagem e faz o que for preciso para ganhar uma bela gargalhada. Segundo o coordenador da Ong, Mario Eduardo Paes, cerca de 25.500 pessoas são beneficiadas, por mês, pelas atividades. No ano, chegam a 360.000 pessoas atendidas. Não se pode negar, um trabalho totalmente contagioso!
E não para por aí. A Ong possui, ainda, três brinquedotecas, a Alisson Rodrigo, no Hospital Estadual de Sumaré e as Hospitalhaços do Hospital da Restauração, de Recife, e do Hospital das Clínicas, da Unicamp, onde ocorrem atividades diárias. São brincadeiras, rodas de leitura e oficinas de arte, que diminuem a ansiedade da internação e fazem com que os pacientes colaborem nos exames e tratamentos, encurtando seu tempo de recuperação.
Quanto vale um sorriso?
Para manter toda a sua estrutura e obter os resultados esperados, a Ong precisaria de parceria com empresas que tenham responsabilidade social. Mas, como as doações só vêm sendo feitas a nível de isenção fiscal, atualmente, os Hospitalhaços têm se mantido apenas com doações esporádicas de voluntários, palestras para empresas, vendas de artigos institucionais e promoção de bazares e eventos beneficentes.
“Nós estamos conseguindo nos manter, mas temos metas a cumprir e, por isso, a importância das parcerias. Trata-se de um trabalho muito gratificante, que não pode parar. Você acaba recebendo mais do que doa. A população é carente e só quer um pouco de atenção, de carinho. Eles não sabem como te agradecer. Aqueles olhos brilhando, o sorriso estampado no rosto, não tem preço”, confessa Mario Eduardo Paes, coordenador do projeto.
Risoterapia, um método que dá certo
“O uso do humorismo e do riso como terapia cai dentro de um conceito mais amplo de medicina. (...) o riso e o humor possuem não só aspectos fisiológicos e psicológicos, mas também aspectos sociais penetrantes. O riso e o humor integram os acontecimentos e os
processos fisiológicos, psicológicos e sociais que moldam as pessoas, mais do que quaisquer outros fenômenos. Este fato dá-nos uma perspectiva geral, da qual podemos vislumbrar muitas descobertas sobre o riso e sua relação com a saúde e a doença.”, MOODY JR., Raymond A. Cura pelo poder do riso, Editorial Nórdica, Rio de Janeiro,1978.
Se a Walquiria já sabia de todos os benefícios que o riso proporciona, não é sabido, o fato é que ela conseguiu transformar um simples gesto em um projeto que vem crescendo a cada dia. São cada vez mais voluntários, mais beneficiados e mais pacientes curados, se não fisiologicamente, pelo menos psicologicamente falando. Hoje, ela está em Recife, onde fundou uma filial da Ong. O pequeno projeto se tornou um grande circo, onde sempre há de caber mais um palhaço. Coloque o nariz vermelho e sorria. “Olha o palhaço, olha o palhaço”.
Uma escolha difícil
Diante de um grande repertório de empreendedores sociais, com projetos extremamente relevantes e bem estruturados, foi difícil escolher em qual projeto nos apoiar. Fizemos uma espécie de votação que já previnia o possível empate, mas mesmo assim não conseguimos o evitar. Estávamos diante de diferentes projetos, com causas ímpares, que provocaram sensações únicas a cada um do grupo. E agora, o que fazer?
A tarefa não era fácil e nós tínhamos consciência disso. Precisávamos nos unir e chegar a um consenso. E assim foi. Não melhor que as demais, mas com uma filosofia simples e de grande valia, acabamos nos dedicando à Ong Hospitalhaços, de Campinas.
O grupo nasceu de uma ação simples e generosa de uma recém chegada à cidade, Walquiria Camelo, e vem trazendo benefícios significativos à recuperação de crianças e adultos, em tratamentos hospitalares, sem qualquer fim lucrativo. Aliás, atualmente, eles têm se mantido apenas com doações esporádicas, vendas de objetos promocionais e alguns eventos que o grupo promove, como bingos e bazares.
Fomos muito bem atendidos por eles, o que acabou sendo outro diferencial. O coordenador do grupo, Mario Eduardo Paes, nos concedeu uma pequena entrevista, esclarecendo as diretrizes do trabalho realizado pelos Hospitalhaços. A Natura falou tanto em paixão que acabou nos contaminando: nos apaixonamos. Era esse o projeto!
E isso não é tudo. A linguagem jovem e a alegria que o trabalho proporciona fez com que nós nos identificássemos. É contagiante, acreditem. Eles trabalham em ambientes considerados frios, sombrios, tranformando a imagem ruim que os pacientes têm de hospitais em uma viagem lúdica ao mundo da imaginação. Eles dão atenção, carinho, alegria aqueles que passam dias sem esperança, sem ilusão de vida.
“Tive uma prima que faleceu aos cinco anos, de leucemia. E lembro que a mãe dela me disse que no dia em que os palhaços visitaram o hospital, minha priminha só ria, esquecendo de todos os seus problemas. Foi muito gratificante pra familia e, por isso, acabei me identificando muito com esse projeto”, contou um dos integrantes do grupo.
Por fim, queremos saber, quanto vale um sorriso? Para a Ong, seus beneficiados, e a nós, do grupo 329, ele não tem preço. É único, é mágico. Ele é e sempre será um pequeno gesto que gera grandes frutos. Você já sorriu hoje?